Entrevista com Marcelo Mixirica, ciclista de longa distância

Brasileiro completou prova de 9,2 mil km cruzando a Rússia

Publicado em 12/09/2017
Entrevista com Marcelo Mixirica, ciclista de longas distâncias

Apenas três ciclistas entre os dez que iniciaram a disputa da Red Bull Trans Siberian Race 2017 conseguiram completá-la em 2017. A prova, que cruza a Rússia de leste a oeste, é a mais longa e exigente do mundo. Neste ano, pela segunda vez consecutiva, o brasileiro Marcelo Florentino "Mixirica" Soares esteve entre os que cruzaram a linha de chegada. Sua terceira colocação foi garantida em extenuantes 326 horas, 4 minutos e 2 segundos.

Ao longo de 24 dias, de 18 de julho a 10 de agosto, Marcelo cruzou cinco zonas climáticas e passou por sete fusos horários diferentes em exatos 9.211 km, de Moscou a Vladvostok - nos quais quase 80 km eram de subida. É o equivalente a três vezes a Volta da França ou a duas vezes o Race Across America. A menor das etapas teve 310 km. A maior, 1.368 km e mais de 50 horas de duração.

Em entrevista ao Atlas Esportivo, Mixirica contou que chegou a juntar latinha para pagar pela viagem, mostrou como a ajuda dos amigos e familiares permitiram que ele realizasse um sonho, explicou os xingamentos dos adversários na estrada, falou sobre uma vida de aventuras em cima da bicicleta e atestou: foi salvo pelo ciclismo.

Marcelo Mixirica só não pôde falar sobre as belas paisagens, evidentes nas fotos e filmagens da Red Bull. "Não consegui ver nada. Você só vê o asfalto e os caras na sua frente", contou. Terceiro colocado, ele ficou atrás do alemão Pierre Bischoff e do russo Alexey Shchebelin, grande campeão. O pódio não fez muita diferença. Na volta, o brasileiro foi recebido pela comunidade do ciclismo como um verdadeiro campeão.

Veja a entrevista completa:

Entrevista com Marcelo Mixirica, ciclista de longas distâncias

O que mais marcou nessa edição da Red Bull Trans Siberian Race?

Foi a competitividade com os adversários. Foi um ano muito competitivo, eles estavam muito fortes, então na metade da prova começava uma guerrinha entre nós. Nas primeiras etapas eu fiquei para trás, mas depois comecei a pegar o jeito, a me defender melhor. Da quarta etapa em diante comecei a melhorar.

Qual é a principal diferença da prova em 2017 para a que você também completou em 2016?

Acho que mudou pra melhor, porque ano passado eu fui sem estrutura nenhuma - fui no milagre. Não tinha dinheiro para nada. Eu fui para a prova com 50 reais e voltei com 50 reais. Levei um apoio melhor do Brasil, melhorou muito. Eu sofri muito com a quilometragem alta, mas mesmo assim consegui terminar.

E como foi essa estrutura?

A própria prova tem estrutura com os carros, restaurante móvel, médico, mecânicos. No ano passado me conseguiram um tradutor. Esse ano eu levei uma pessoa, com muita dificuldade, na última hora conseguimos a passagem e ela me ajudou como apoio, até em lavar a minha roupa. É a Neusa Telheiro, que vem me ajudando desde que atravessei o Brasil. Ela pegou a causa do ciclismo e é uma pessoa fundamental nessas provas todas.

Entrevista com Marcelo Mixirica, ciclista de longas distâncias

Foi muito difícil levantar a verba para fazer a prova esse ano?

Os amigos do sul me ajudaram na inscrição. É um absurdo, é tipo 15 mil euros (60 mil reais). Conseguimos. O restante eu tinha que me virar. Eu trabalhei de courier, fazendo entrega, até sucata e latinha eu juntei para vender e comprar a passagem. E, mesmo assim, não consegui pagar a do ano passado ainda. Vendi bicicleta, trabalhei de mecânico, fiz de tudo. E a família me ajudou muito na parte da alimentação, do treinamento.

Você não conseguiu zerar tudo, então?

A passagem da primeira vez que competi ainda estou pagando. Estou com uma dívida. Mas esse ano ganhei equipamento, sapatilha, capacete e a bike foi emprestada. Isso me ajudou muito, senão eu não conseguiria. Ano passado eu não tinha nem roupa. Cheguei lá, e o pessoal do Hilton deu uniformes para mim.

Do hotel?

É. Esse ano eles fizeram uma surpresa, fizeram uniformes com a cor do Brasil e me deram. Isso foi fantástico.

Você citou a "guerrinha" contra os adversários durante a prova. Como que era a relação com eles fora da estrada?

Eu só conseguia ter contato de leve com o russo, que ganhou. Ele já veio para o Brasil em algumas corridas no Paraná. Ele falava um pouco de português, e também o alemão fala um pouco de espanhol, então dava para falar. Mas na corrida eles me xingavam muito. Quando terminava a prova, aí era outra coisa. Na pista, o bicho pegava. O único contato era com esses dois. O restante só gritava "Marcelo, Marcelo".

Xingavam mesmo?

Eles faziam alguns jogos psicológicos, igual os argentinos quando vão jogar futebol. Depois da quarta etapa eu percebi o que estavam fazendo. E no físico, eles também atacavam: todo dia querendo me largar [para trás]. Mas da quarta etapa em diante eles abriram meus olhos.

Entrevista com Marcelo Mixirica, ciclista de longas distâncias

A prova foi disputada no auge do verão europeu. Como era o clima, as temperaturas?

O verão deles é tipo o frio daqui de São Paulo mais ou menos, esse friozinho. Tinha dia com sol. As madrugadas que eram frias, chegou a fazer -2˚C na Sibéria. E os caras andavam "pelados". Eu tremendo e eles só de camiseta. Os caras morrendo de calor, e eu com frio. Aí quando fazia 25˚C eles derretiam também. Era mais ou menos isso. Foi um clima agradável. E teve uma etapa, a 13ª, que foi 700 km só de chuva, uma chuva nervosa.

E os visuais?

Nada. Não consegui ver os vídeos ainda. Os vídeos da Red Bull, que são bonitos. Você só vê o asfalto e os caras na sua frente.

Você já literalmente cruzou o Brasil - em tempo recorde de 57 dias, do Monte Caburaí ao Chuí. De onde vem esse desejo de fazer provas tão longas?

Desde criança eu já fugia de casa. Quando tinha uns 10 anos ia para o Ibirapuera. Com 13 anos fui para Santos pela Serra do Mar. Já tinha o gosto da aventura por coisas longas. No ciclismo também. Eu comecei quando as provas chegaram no Brasil, de Audax, comecei a fazer viagem longa: ia para o Rio de Janeiro de bike e voltava, ia para Santa Catarina. Depois comecei a pegar essas mais nervosas. Um dia apareceu esse desafio do Monte Caburaí, que era de quase 11 mil km. Tive chance de participar. Até ali eu nunca tinha passado de 2 mil km.

E isso o credenciou a fazer a Red Bull Trans Siberian Race.

Eu quis procurar algumas provas nesse tanto e achei a da Red Bull. Na verdade, o sonho era fazer a Race Across America. Desde 98 o meu sonho é fazer ela. Mas aí acabou de eu fazer primeiro a Red Bull, que é a mais extrema do planeta. E acabei fazendo duas vezes.

Entrevista com Marcelo Mixirica, ciclista de longas distâncias

Você se sustenta com o ciclismo?

Eu amo o ciclismo. Eu devo a minha vida a esse esporte, porque teve uma fase em que eu tinha dois caminhos e consegui parar no ciclismo. Em 89 fui para o ciclismo e o levo como algo que salvou a minha vida. Eu dou tudo pelo ciclismo, porque ele salvou a minha vida.

Por que, exatamente?

Essa fase da adolescência... Eu moro em um bairro meio nervoso - Capão Redondo, Jardim Ângela, sabe? É um lugar em que você é influenciado. E eu estava quase nessa. Aí pensei: tenho que arranjar algo para sobreviver. Peguei o ciclismo sem nenhum apoio. Até a família falava que era vagabundagem. E foi assim por vários anos, mais de 20 anos: sempre me virei. Eu trabalhava e comprava minha roupa, meu capacete. A bicicleta eu usava de acordo não com a prova, mas com a bike que eu tinha. Foi assim até agora. Não tenho apoio. Agora é que aconteceu de ter mais apoio. Não tenho o que é ideal. Até antes do Red Bull foi sempre essa vida. Sempre um participante - eu fico feliz de participar.

Entrevista com Marcelo Mixirica, ciclista de longas distâncias

Por Danilo Vital

Foto de capa: Denis Klero/Red Bull Content Pool
No pódio: Pavel Sukhorukov/Red Bull Content Pool
Cumprimentando: Volodya Voronin/Red Bull Content Pool
Com os rivais: Denis Klero/Red Bull Content Pool
Na chuva: Denis Klero/Red Bull Content Pool
Pedalando sozinho: Pavel Sukhorukov/Red Bull Content Pool