Entrevista com Lewis Kent, profissional da corrida e cerveja

Com sete patrocinadores, ele é expoente da prova Beer Mile

Publicado em 18/09/2017
Entrevista com Lewis Kent, profissional da corrida e cerveja

Em grupos no WhatsApp e rodas de amigos, há sempre algum amante da cerveja pronto para mostrar resultados engraçados de pesquisas duvidosas indicando que a bebida não faz mal à saúde, pelo contrário: quem a consome é mais feliz, vive mais e melhor. Lewis Kent há muito sabe como essa relação é possível e, mais do que isso, autossustentável: o canadense de 24 anos é o primeiro atleta profissional da história pago para beber e correr. Nesta exata ordem.

Lewis é o mais relevante praticante do Beer Mile, esporte que saiu das farras universitárias do hemisfério norte para as telas da ESPN Internacional. O que alguns estudantes faziam como desafio - parecido com as "maratomas" das repúblicas brasileiras - ganhou regras: é preciso correr uma milha (1.600 m) e, a cada 400 m, beber pelo menos 355 ml de cerveja (uma long neck). Quem fizer tudo isso mais rápido vence.

Durante algum tempo entre 2015 e 2016, Lewis Kent foi o mais rápido do mundo. Isso chamou a atenção de Kris Mychasiw, um agente que costurou o acordo de profissionalização da modalidade: Kent passou a ser patrocinado pela marca de calçados esportivos Brooks, com direito a modelo personalizado, e a ganhar dinheiro para participar de eventos e competições. A imprensa canadense coloca os ganhos de Lewis na casa dos 100 mil dólares por ano.

"Eis o que nós vamos fazer: quando as pessoas pensarem em Beer Mile, elas vão pensar em Lewis Kent. E quando elas pensarem em Lewis Kent, elas vão pensar em Brooks", disse Kris, quando ofereceu o acordo ao corredor, em setembro de 2015. Na esteira do sucesso, ele hoje é patrocinado por mais seis marcas. Em entrevista ao Atlas Esportivo, Lewis falou sobre o sucesso da modalidade e deu dicas para o brasileiro que quiser tomar sua cerveja e manter a forma atlética.

A ciência de beber e correr

Hoje em dia, Lewis não é mais o único profissional no circuito de Beer Mile. Corey Bellemore assinou com a Adidas em dezembro de 2016, como admitiu, muito graças à exposição que o adversário proporcionou com a Brooks. Ele é o atual detentor do recorde mundial da categoria, marca que já foi de Lewis Kent, mas foi baixada em 13 segundos por Bellemore: 4min23s35.

O recorde homologado pela Federação Internacional de Atletismo (IAAF) para a distância - sem cerveja, claro - é de 3min43s13, pelo marroquino Hicham El Guerreouj, em 1999. A comparação mostra como Lewis Kent e Corey Bellemore estão acima do estereótipo de corredor de final de semana e amante da cerveja. Eles são verdadeiros atletas, com rotina de treino e métodos desenvolvidos.

"Honestamente, a prática leva à perfeição. Eu gastei horas e horas praticando como virar [uma cerveja] o mais rápido possível e mais tempo ainda aperfeiçoando o 'chug-and-run' na pista de corrida", explicou Kent, que testou até o ângulo de inclinação da garrafa. "Funciona diferente para cada um, então você tem mesmo é que tentar", afirmou.

Entre as características da estratégia desenvolvida está não poupar arrotos - causados pelo gás da bebida - e correr com uma luva de jardinagem para abrir as garrafas, para evitar que alguma tampinha mais resistente provoque qualquer perda de tempo. Um tópico primordial para o sucesso é escolher corretamente a cerveja, algo permitido a cada corredor, de acordo com as regras.

"Eu evitaria qualquer cerveja escura (stouts) ou com gosto muito forte (IPAs e cream ales). Eu acho que as lagers descem mais fácil, são uma cerveja básica. Só não escolha sua favorita, porque você não quer estragar [essa preferência] se algo der errado", explicou o canadense. Nas provas, ele costuma beber Amsterdam Blonde, lager canadense com 5% de álcool. Já no dia a dia, bebe a lager ou a Full-IPA da Beau, cervejaria de Ontario, no Canadá.

Efeitos na saúde

Quando "algo dá errado" durante a corrida, normalmente o corredor não consegue processar o alto desempenho requerido na pista com a quantidade de cerveja consumida. Não é incomum que os participantes vomitem, por exemplo. Dependendo da resistência ao álcool, é também possível sentir efeitos de embriaguez depois de virar quantidade total de 1,4 litros em menos de 5 minutos. Os efeitos na saúde, no entanto, não oferecem risco, segundo Lewis Kent.

"Eu conversei com muitos médicos sobre isso, e eles me disseram que não há questões sobre saúde envolvidas. O único efeito é um certo 'barato' que alguns corredores experimentam depois de uma prova e a agitação por causa das quatro cervejas", contou o atleta, que já rodou os Estados Unidos por conta da Beer Mile e chegou a correr em Londres (Inglaterra) e Melbourne (Austrália).

Lewis é formado em fisioterapia e trabalha como consultor financeiro, além de ser professional beer miler. Mais do que isso, é cervejeiro. "Eu sou fã de cerveja. Eu bebia antes da Beer Mile e com certeza continuarei bebendo muito depois", contou. E até já experimentou uma marca brasileira: Brahma.

No país do futebol, sua modalidade não é exatamente conhecida. Ela começa a ganhar popularidade agora, difundida por marcas interessadas em chamar a atenção e ganhar exposição. Já as "beer runs", eventos que reúnem corrida ou caminhada e, só depois, degustação de cerveja, têm ficado mais populares por todo o país. Para Lewis, só há um fator a ser levado em consideração.

"Eu aconselharia as pessoas a se divertirem", pontuou. "No final do dia, se as pessoas estão se mantendo ativas e se divertindo - tendo a cerveja como recompensa -, isso é fantástico", complementou.

Foto: Reprodução